De onde veio o homem do chapéu que atravessa as passadeiras ?

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De onde veio o homem do chapéu que atravessa as passadeiras ?

Mensagem por MC em Sab Maio 02, 2015 7:24 am

Em Portugal, tem havido a preocupação de tornar os sinais de trânsito mais neutros do ponto de vista do género, diz a Autoridade de Segurança Rodoviária. As figuras nos sinais de passagem de peões, por exemplo, perderam o chapéu e tornaram-se mais geométricas. Mas esta é, por excelência, uma área que resiste às mudanças.



O episódio deu que falar em 2006: Fuenlabrada, município nos arredores de Madrid, decidiu mudar os sinais de trânsito. Algumas das tradicionais placas com figuras masculinas a atravessar uma passadeira, foram substituídas por silhuetas femininas, com saia e cabelo apanhado. A mudança foi tão polémica que a Dirección General de Tráfico advertiu: as meninas das passadeiras violavam as orientações das Nações Unidas sobre o assunto. Não se podia mudar os sinais assim, sem mais. Pedro Bessa, professor da Universidade de Aveiro, que um ano antes defendera uma tese de doutoramento sobre as “representações do masculino e do feminino na sinalética”, interessou-se pelo debate. E não, diz, não era verdade que algum protocolo internacional estivesse a ser desrespeitado.

Na verdade, não só os sinais femininos vieram para ficar em Fuenlabrada, como também alguns semáforos passaram a alternar figuras femininas com masculinas. E ainda no ano passado o município assistia à inauguração de mais um “semáforo no sexista”, como lhe chamou a imprensa local.

Pedro Bessa explica que não só noutros países já se tinha tentado usar a sinalética para questionar estereótipos de género (algumas cidades da Alemanha, por exemplo, acrescentaram ao famoso Ampelmann, o homem do chapéu dos sinais luminosos, originário do Leste, a Ampelfrau, a mulher das tranças), como as directrizes internacionais não vão ao pormenor de detalhar como deve ser desenhada cada figura dos sinais de trânsito.

As regras internacionais são precisas sobre as medidas dos sinais, as cores, as formas, a distâncias a que devem ser colocados da berma, ou da curva, ou... mas nada dizem sobre se uma figura deve usar saias, calças, calções. Ou chapéu.

“Estas figuras sempre variaram bastante, do Reino Unido à Alemanha, passando pela Bélgica, França, Espanha, etc. Em vários países, como Portugal, houve vários designs presentes em simultâneo, uns mais antigos do que outros, uns importados de uns países, outros de outros (dependendo da empresa que fornecia os sinais)”, explica ao PÚBLICO o professor do Departamento de Comunicação e Arte de Aveiro. “No Gerês, por exemplo, ainda hoje se vêem sinais pintados à mão.”

Um chapéu português?
A pictografia sinalética trabalha, essencialmente, com estereótipos e caricaturas. É conservadora por excelência. E a sinalização rodoviária, em particular, é-o ainda mais — até porque há sempre o argumento da segurança. Se se mudarem os sinais estes perdem eficácia, os condutores podem ficar confusos.

Este conservadorismo ajudará a explicar que em Portugal — como ilustra o professor de Aveiro na sua tese de doutoramento — “os pictogramas relativos a ‘travessia de peões’ (grupo dos sinais de perigo) e ‘passagem para peões’ (grupo dos sinais de informação) mantivessem durante muito tempo (e ainda mantêm, nalguns casos) o característico chapéu, uma peça do vestuário masculino caída em desuso desde finais de 60”.

O homem com chapéu é “um anacronismo” — paradigmático, de resto, do domínio das figuras masculinas na sinalização, na que regula o trânsito e não só. Mas já voltamos a este ponto. Centremo-nos, para já, no homem com o chapéu que atravessa a passadeira desde o século passado. Será uma coisa portuguesa?

O primeiro regulamento sobre a circulação de automóveis em Portugal é de 1901 e não contém nenhum sinal de trânsito. Tem antes orientações genéricas, como esta: “É proibido o trânsito a automóveis nos passeios destinados a peões ou a cavaleiros.”

Já o primeiro “Código da Estrada”, com esse nome, é de 1928, quando havia, no país, menos de 5000 automóveis registados. Estabelece a obrigatoriedade de circular pela direita da faixa de rodagem e fixa meia-dúzia de sinais, como o que alerta para a aproximação de passagem de nível sem guarda. Não contém nenhum sinal que ilustre peões.

Após o fim da II Guerra Mundial, a Comissão de Transportes e Comunicações das Nações Unidas propõe a assinatura de um protocolo que fixe definitivamente as formas, cores e condições de implantação não só de todos sinais existentes mas também dos futuros. Fica conhecido como “protocolo de Genebra”. Assinado em 1949, destina-se a “garantir a segurança da circulação rodoviária” e a “facilitar a circulação rodoviária internacional”.

Um chapéu internacional
Portugal aderiu sete anos depois ao protocolo e o texto foi publicado, na íntegra, no Diário do Governo, numa versão em português e noutra em francês. E é aqui que, finalmente, encontramos o chapéu: o sinal I.17 apresenta a figura de um homem a atravessar a passadeira para indicar a “proximidade das passagens de peões”. Leva um chapéu na cabeça.

As figuras que constam dos sinais desse protocolo são todas masculinas — a excepção é uma menina de rabo de cavalo representada no sinal que indica a aproximação de locais frequentados por crianças.
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